Há poucos dias, o mundo parou diante de televisores e telões, enquanto os estádios se enchiam para receber o maior espetáculo esportivo já realizado.
A emoção atingiu a todos: empresários de grandes corporações, astros do rock, reis e plebeus, religiosos e ateus, presidentes e eleitores. Todos pararam para assistir aos melhores jogos de futebol. Até mesmo um país em guerra participou da competição no território do inimigo. Por alguns instantes, pareciam ficar em segundo plano as vidas ceifadas, a pátria destruída, o sofrimento e as privações já estabelecidas – tudo em nome do esporte e de uma disputa que, por si só, não mudaria essa realidade.
As estrelas do evento eram jovens promessas ou atletas consagrados, tratados como ídolos e heróis. Todos muito bem remunerados pela profissão e admirados – ou contestados – em um êxtase que alcançava milhões de pessoas, numa verdadeira comoção global.
Ao lado desses atletas e treinadores milionários, estavam empresas que faturavam bilhões, sobretudo as dos setores de comunicação e de artigos esportivos. Seus lucros estratosféricos eram resultado de um planejamento meticuloso e de uma eficiência máxima em organização e marketing, capazes de transformar a competição em um espetáculo perfeito e magistral. Tudo era preparado para extasiar o público com tanta beleza e perfeição, fazendo-o esquecer, ainda que por alguns instantes, seus problemas e, para muitos, suas cruéis privações. Tudo é futebol e, em nome dele, tudo parece tolerável, esquecível e até aceitável. No entanto, os benefícios se concentram nos atletas, nos técnicos e em um número mínimo de envolvidos, quando comparado aos bilhões de torcedores.
Assim também é a vida. E, quem venceu? Como quase sempre acontece, venceu o melhor. Nesse caso, foi a Espanha, que não perdia havia 37 jogos e ampliou a sequência para 38. Lágrimas, comoção, sorrisos e delírios: nada faltou. O maior ídolo de todos chorou e representou muito bem os sentimentos de todos os derrotados. O presidente do país-sede também esteve presente e condecorou atletas e treinadores. Para isso expôs-se a um risco enorme, cercado por um aparato de segurança igualmente grandioso, em um estádio com dezenas de milhares de pessoas comprimidas para assistir à final da maior disputa esportiva de todos os tempos, acompanhada por shows de astros incríveis.
E o nosso Brasil, como se apresentou? Pela mídia, foi um sucesso. Empresas de comunicação muito bem preparadas faturaram bilhões e mobilizaram os brasileiros a torcer pelo nosso esquadrão, o antigo Canarinho, alimentando a esperança de que chegaríamos à final. Para isso, porém, seriam necessárias cinco zebras consecutivas nos mata-matas. Nossa seleção, como vem ocorrendo há muito tempo, mostrou-se apática, sem talentos de destaque, com resultados pífios, falta de garra e ausência de profissionais qualificados e empenhados. Assim, tornou-se alvo de todos os ‘mimimis’ e das gozações que a inteligência artificial hoje nos proporciona.
Vale ainda observar Messi: um grande profissional, responsável e admirado por todos, inclusive por seus adversários. Yamal, por sua vez, é um jovem sem molecagens, sério e compenetrado. Certamente conta com uma assessoria eficiente, que o orienta, e ele demonstra saber ouvi-la.
Parabéns à Espanha. Foi uma campeã merecedora, que certamente realizou um trabalho sério e se preparou com eficiência para alcançar esse resultado.
Brasil, aprenda que nem tudo é futebol e carnaval. Volte a se preocupar com a construção de um país melhor, mais justo, mais ético, e com mais segurança, para que também possamos nos orgulhar de nosso ensino, de nossa postura com o próximo e do modo como enfrentamos as diferenças sociais, tanto quanto nos orgulhamos de repetir que somos pentacampeões mundiais de futebol, como se isso tivesse a validade de uma pensão vitalícia.
João Carolino é engenheiro, empresário e maratonista







