“Tratado sobre o Amor” nasce do encontro entre o cérebro e o coração

A curiosidade clínica de um neurocirurgião e o rigor de um neurocientista aplicados ao fenômeno que mais mobiliza decisões humanas. E foi daí que nasceu a ideia do meu 10º livro “Tratado sobre o amor”.

Ao longo dessa minha mais nova obra recém-lançada, eu investigo o que o cérebro faz — e o que nos faz fazer — do primeiro flerte à possibilidade de um amor que resiste ao tempo, passando por ciúmes, idealização e separação. Mais que contar histórias, proponho um manual de neuroalfabetização afetiva: compreender para sentir melhor e decidir com mais lucidez.

No início, a sedução acende o sistema de recompensa. A via dopaminérgica mesolímbica (área tegmental ventral–núcleo accumbens) amplifica foco, energia e busca. É por isso que o encantamento parece “viciar”: pensamos mais, dormimos menos, tudo ganha cor. Em paralelo, a serotonina tende a oscilar em patamares mais baixos, contribuindo para pensamentos repetitivos e certa obsessividade típica da paixão. O córtex pré-frontal seleciona sinais do ambiente, enquanto a amígdala calibra risco e desejo — dança fina entre impulso e prudência. Fisicamente, o corpo responde: taquicardia, sudorese, alteração do apetite, pupilas dilatadas. É o romance escrito em linguagem neuroquímica.

“Quanto tempo dura o amor?” Depende do que chamamos de amor. A fase de paixão intensa costuma ser transitória; depois, se houver compatibilidade e investimento, amadurece para vínculo: entram em cena oxitocina e vasopressina, que consolidam confiança, cuidado e rotinas de afeto. O amor duradouro, portanto, é menos um raio do acaso e mais uma construção neurocomportamental: práticas que mantêm novidade, propósito compartilhado e comunicação aberta nutrem as redes que sustentam o apego.

“E o ciúme?” É um alarme que mistura medo de perda e necessidade de controle. Quando desregulado, o circuito amígdala–insula–córtex cingulado anterior domina a cena, estreitando o campo de percepção. O antídoto não é “sentir menos”, e sim regular melhor: nomear emoções, ajustar expectativas, cultivar segurança interna e acordos explícitos.

“Como a atividade física entra nessa história?” Movimento é intervenção cerebral. Exercícios aeróbicos e de força modulam dopamina, endorfina e testosterona/estrógeno, melhorando disposição, imagem corporal e desejo sexual — sem fórmulas mágicas, mas com efeito acumulativo.
“E quando o amor acaba?” A separação é um desmame neuroquímico. Romper rotas de recompensa exige tempo e estratégia: higiene de estímulos (evitar gatilhos digitais), rotina previsível, sono adequado, exercício, exposição social progressiva e propósito. Memórias não se apagam; ressignificam-se.

O livro percorre ainda o flerte (atenção conjunta, humor, sincronia corporal), mitos do “amor eterno” (constância nasce de manutenção ativa), e o que a ciência revela sobre relacionamentos contemporâneos: sobrecarga de escolha, economia da atenção, performance afetiva. Em cada capítulo, eu trago neurodicas práticas que transformam evidência em ação — pequenas alavancas para grandes mudanças. Muito além do sentir, convido você a conhecer as formas, verdades e mistérios do sentimento mais humano de todos, com o cérebro como guia e o coração em pleno diálogo.

Dr. Fernando Gomes é neurocirurgião, neurocientista e professor
livre-docente da Faculdade de Medicina da USP