Falar em sustentabilidade na arquitetura contemporânea é, antes de tudo, falar sobre escolhas. Uma casa sustentável não é apenas aquela que possui placas solares ou sistemas de reaproveitamento de água, é uma casa pensada para consumir menos recursos, durar mais e estabelecer uma relação mais consciente com o lugar onde está inserida.
Quando uma residência passa por reforma, surge uma oportunidade valiosa de rever a maneira como ela funciona, mas também de olhar com atenção para aquilo que já existe; antes de substituir, vale perguntar: o que podemos preservar, recuperando e dando um novo significado?
Esse foi o ponto de partida da Casa 316, “A Casa da Vó”, um projeto em que memória e sustentabilidade caminham juntas. Em vez de apagar as marcas do tempo para criar algo inteiramente novo, a proposta buscou reconhecer o valor da história existente e trazê-la para uma nova fase da casa, pois, nada se perde, tudo se transforma.
Os pisos originais, portas e janelas foram recuperados. Peças em madeira de demolição. Lustres antigos foram restaurados e móveis existentes ganharam nova vida por meio da recuperação e novos usos. Assim, peças que poderiam ter sido descartadas passaram a integrar novamente os ambientes.
Essa valorização do passado foi associada às soluções sustentáveis do presente. A residência recebeu placas solares para geração de energia e caixas de captação de água, para irrigação do jardim. O resultado mostra que tradição e tecnologia não precisam seguir caminhos opostos: podem coexistir e se complementar.
Sustentabilidade também significa evitar desperdícios. Materiais excedentes de outras obras, muitas vezes novos e nunca utilizados, podem encontrar novos destinos. Priorizar materiais duráveis e atemporais, de origem responsável e produzidos por processos que reduzam resíduos e impactos ambientais, destinando corretamente o que não pode ser reutilizado.
Mesmo sem grandes reformas, atitudes como reduzir o consumo de água e energia, fazer uso de luz natural, adotar iluminação eficiente, introduzir áreas verdes e reutilizar móveis, fazem muita diferença.
Nesse processo, o olhar do arquiteto é essencial para analisar cada decisão como parte de um conjunto único: o que deve permanecer, o que pode ser transformado, quais materiais podem ser reaproveitados, onde novas tecnologias fazem sentido e como conciliar conforto, beleza, eficiência e respeito ambiental.
A Casa 316 traduz esse pensamento. Uma arquitetura que respeita sua própria história, recupera o que o tempo tornou valioso e, ao mesmo tempo, incorpora recursos contemporâneos para olhar para o futuro. Porque o verdadeiro luxo não está apenas no novo, mas na história que escolhemos continuar e no impacto sempre positivo de nossas escolhas para a casa, a cidade e o planeta.
Sibele Stamato é arquiteta e especialista em arquitetura de luxo.
@sibelestamato









