Saúde pública que funciona

Como São Paulo pode turbinar o que já existe no SUS (e transformar check-up e esporte gratuito em rotina)

Como você pretende melhorar sua saúde neste ano? Eu preciso te explicar que o cérebro humano não adere ao que é apenas “importante”. Ele adere ao que é fácil, repetível e recompensador. Essa é a chave para qualquer política pública de saúde que pretenda sair do discurso e entrar no cotidiano.

E aqui está a boa notícia: muita coisa já está disponível gratuitamente no SUS e na rede pública da cidade de São Paulo, tanto para prevenção (o ‘check-up inteligente’) quanto para atividade física (o ‘esporte como medicamento’). O desafio real não é inventar do zero – é organizar, lembrar, facilitar o acesso e integrar o cuidado.

A seguir, trago um mapa do que a população já pode acessar e, principalmente, ideias de políticas públicas pragmáticas para aumentar adesão e impacto, com foco especial no estado de SP (e, quando aplicável, na capital).

O que já existe no SUS para o seu check-up
No SUS, o conceito de check-up não é ‘uma bateria genérica anual para todo mundo’. É prevenção por risco e fase da vida, feita na Atenção Primária (UBS), com rastreamentos e acompanhamento contínuo.

Rastreamento do câncer do colo do útero (Papanicolau)
• O exame é ofertado no SUS e recomendado para mulheres de 25 a 64 anos que já iniciaram atividade sexual; após dois resultados normais consecutivos, o intervalo costuma passar a 3 anos.

Mamografia no SUS (rastreamento)
• Há diretrizes e notas técnicas atualizadas nos últimos anos sobre faixa etária e organização do rastreamento no SUS, com recomendações oficiais e atualizações recentes publicadas por instituições vinculadas ao sistema.
• (E sim, existe debate técnico no Brasil sobre faixa etária ideal; isso reforça a necessidade de comunicação pública clara e alinhada à diretriz vigente no SUS.)

Vacinação ao longo da vida
• O Ministério da Saúde mantém o Calendário de Vacinação com documentos técnicos por faixa etária (criança, adolescente, adulto, idoso, gestante).
• Na capital, a Secretaria Municipal de Saúde também publica seus calendários e materiais atualizados.

Acompanhamento de hipertensão e diabetes na Atenção Primária
• O SUS tem tradição e protocolos para o acompanhamento longitudinal na atenção básica — o que, na prática, significa: medir pressão regularmente, rastrear risco, orientar estilo de vida, acompanhar glicemia quando indicado e tratar cedo para evitar AVC, infarto e insuficiência renal.

O ‘esporte’ como política de saúde’ já é gratuito
Em São Paulo há estrutura pública, há programas e há espaços. O que falta, muitas vezes, é conexão. Descubra:

Programa Academia da Saúde (SUS)
• É uma estratégia nacional da Atenção Primária (polos com profissionais e atividades), lançada em 2011, com eixos que vão além de exercício: educação em saúde, práticas integrativas, alimentação saudável e mobilização comunitária.
• Na cidade de São Paulo há Academias da Saúde vinculadas a UBS, com atividades abertas ao público (alongamento, fortalecimento, pilates, exercícios funcionais, lian gong etc.).

Centros Esportivos Municipais (capital)
• A Prefeitura de São Paulo possui Centros Esportivos com aulas e atividades gratuitas; para participar, em geral basta fazer a carteirinha.
• Há ainda comunicação pública indicando que os Centros Esportivos oferecem atividades e que, para algumas modalidades, pode ser exigido atestado — e há casos em que o exame pode ser feito no próprio equipamento, reduzindo barreira de entrada.

Ciclofaixas de lazer (atividade física ‘urbana’)
• A CET e canais oficiais da Prefeitura comunicam ativações de ciclofaixas de lazer em domingos/feriados, criando infraestrutura temporária para prática segura.

No estado de SP: cultura de promoção de atividade física
• Há histórico de políticas e iniciativas estaduais voltadas à promoção da atividade física (ex.: referências ao “Agita São Paulo” em materiais técnicos e relatórios).

Mais saúde com a engrenagem certa
Como neurocientista, eu resumiria assim: saúde pública é design de comportamento em escala. O SUS já oferece pilares fundamentais (Atenção Primária, vacinação, rastreamentos e programas de promoção). São Paulo já tem rede esportiva municipal robusta e iniciativas que estimulam atividade física no espaço urbano.

A próxima geração de políticas públicas não precisa ser “mais uma campanha”. Precisa ser integração, facilidade e rotina: prevenção que acontece sem o cidadão ter que “lutar contra o próprio dia”.
Vamos começar agora mesmo a mudar a sua saúde? Eu vou junto com você!

Dr. Fernando Gomes é neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP