O sequestro do Ensino Médio

O vestibular deixou de ser apenas uma porta de entrada para a universidade. Tornou-se o principal responsável por desviar o Ensino Médio de sua verdadeira missão: formar seres humanos para a vida.

Há um fenômeno silencioso acontecendo na educação brasileira. Poucos percebem, mas suas consequências são profundas: o Ensino Médio foi sequestrado. Não por governos, nem por professores ou famílias. Foi sequestrado por um modelo que passou a acreditar que a qualidade de uma escola pode ser medida apenas pelo número de alunos aprovados nos vestibulares.

Basta observar as campanhas publicitárias de muitos colégios. Outdoors exibem, com orgulho, estudantes aprovados ‘direto do Ensino Médio’. A mensagem é clara: quanto maior o número de aprovações, melhor a escola.

Mas, essa lógica merece uma reflexão.

O vestibular foi criado para selecionar candidatos às universidades, não para definir o propósito da educação básica. No entanto, ao longo dos anos, ele deixou de ser apenas um processo seletivo e passou a determinar o currículo, a metodologia, a rotina e, em muitos casos, a própria identidade do Ensino Médio.

Quando isso acontece, a formação humana perde espaço para o treinamento. Os três anos, que deveriam ser decisivos para consolidar valores, desenvolver pensamento crítico, fortalecer a autonomia, ampliar repertório cultural e preparar o jovem para os desafios da vida, acabam consumidos por uma rotina intensa de simulados, listas de exercícios, técnicas para resolver questões, estratégias para eliminar alternativas e métodos de memorização voltados para uma única finalidade: acertar uma prova.

Não há nada de errado em preparar um aluno para o vestibular. O problema surge quando essa preparação passa a ser o principal objetivo da escola, porque ensinar não é a mesma coisa que treinar.

Treinamento busca desempenho em uma tarefa específica.

Educação forma pessoas capazes de aprender continuamente, interpretar o mundo, tomar decisões, conviver com diferenças, criar soluções e enfrentar problemas que jamais aparecerão em um gabarito.

Em uma época em que a Inteligência Artificial responde, em segundos, boa parte das perguntas que antes exigiam anos de estudo, talvez seja o momento de repensarmos o que realmente significa ensinar.

A escola do futuro será reconhecida não pelo número de aprovados estampados em outdoors, mas pela capacidade de formar pessoas curiosas, éticas, criativas e preparadas para continuar aprendendo durante toda a vida.

O vestibular continuará existindo. E deve continuar.

Mas, ele precisa voltar ao seu lugar. Ser uma etapa do percurso, nunca o destino da educação, porque, quando o Ensino Médio é reduzido à preparação para uma prova, quem perde não é apenas a escola.

Alessandro Bernardo é economista, especialista em Gestão por
Desempenho, além de professor universitário e diretor de escola há mais de 25 anos