Como Freud pensaria a psicanálise em tempos atuais? Essa dúvida atravessa diversos espaços, como entre psicanalistas, no cinema, no teatro, em diversos simpósios e entre interessados neste mundo “cult”.
Retomando os conceitos de Pulsão e Libido apresentados por Freud em suas obras, em uma simples analogia com a economia, imaginemos a Pulsão como o fluxo de caixa de uma operação: ela precisa circular para gerar valor e o negócio não estagnar. Assim como a operação, a Pulsão precisa ser investida e desinvestida constantemente para não gerar angústia. A Libido, por sua vez, é o valor investido em diferentes ativos, como projetos, pessoas e metas; dessa forma, com mais ativos, mais relações, vínculos e conflitos surgem na vida a cada dia.
Essa conta é refeita todos os dias, como quando acordamos e checamos o celular, verificando quem se relacionou conosco, seja via WhatsApp, Instagram, um novo match no app de relacionamento ou a vaga desejada no LinkedIn. Porém, nada disso existia na época de ouro freudiana. Como, então, pode-se atrelar esses conceitos a novos tempos?
Seguimos novamente com essa questão: as redes sociais nos levam a uma nova forma de relacionamento com o mundo e conosco. A ideia de uma “rede social” apresenta uma conexão já conhecida pelos nossos avós; eles sabiam quem estava doente, o que aconteceu com o filho da Dona Maria e em qual mercado o tomate estava mais barato. O que mudou, então?
A modernidade nos apresentou a virtualização da Pulsão e da Libido. Onde antes os relacionamentos eram feitos entre vizinhos e comunidades, agora essas mesmas relações acontecem via smartphone e notebook. Na nossa analogia, Freud notaria uma inflação severa. Se a Libido é o nosso capital para investir no mundo, as redes sociais criaram um mercado de “microativos” de baixíssimo retorno. Investimos nossa energia psíquica (Libido) em centenas de interações superficiais, esperando um dividendo emocional — o like, o comentário, a visualização — que nunca consolida um patrimônio interno. O resultado é uma sensação de insolvência: trabalhamos muito, nos relacionamos em rede o tempo todo, mas terminamos o dia com o fluxo de caixa zerado e uma angústia persistente.
Temos, então, um novo problema para Freud explicar: como lidar com a globalização, o imediatismo, as novas formas de se relacionar e o investimento da Libido? Para Freud, a lógica se manteria a mesma: a Pulsão, enquanto fluxo de caixa, redescobrirá, no mundo globalizado, novos portos de afeto. A tecnologia que acelera o imediatismo também encurta distâncias para o abraço. A recente apresentação do grupo de K-pop BTS, por exemplo, convoca o sujeito de microativos a sentir o poder de uma música composta do outro lado do mundo; dessa forma, o investimento da Libido pode ser ressignificado. Saímos da tela vazia para o encontro com o outro, ainda que mediado pela técnica.
No fim, a saúde psíquica não é o isolamento do mundo moderno, mas a coragem de usar esse fluxo de caixa ininterrupto para regar vínculos que realmente pulsam. Afinal, o maior lucro de uma vida não está na vitrine, mas na capacidade de transformar a pressão interna em um desejo que nos faça, finalmente, sentir-se em casa em qualquer lugar do planeta.
Luiz Felipe Sanches é psicólogo e psicanalista, com atuação voltada à compreensão dos desafios contemporâneos nas relações humanas.








