Neste mês celebramos a Páscoa. Para os cristãos, é o momento de recordar a paixão, a morte e, no domingo, a ressurreição de Jesus. Para os judeus, é o tempo de relembrar a libertação do povo de Israel da escravidão no Egito, conduzido por Moisés.
Em seu simbolismo mais prático e compreensível, a Páscoa traz uma mensagem profundamente humana: a esperança em meio ao caos. A ressurreição. A saída da escravidão. A passagem das trevas para a luz.
Ela representa a oportunidade de transformar o jugo imposto pelas circunstâncias, transcender obstáculos e recomeçar: revigorado, modificado e aperfeiçoado.
Esse processo de transformação também se manifesta no movimento da vida humana. Trata-se do princípio que revela a escuridão antecedendo a luz, o túnel que precede a saída, o caos que antecede a criação. Muitas vezes, essa dinâmica surge diante da morte de um projeto, de um sonho ou de um desejo; outras vezes, manifesta-se nas trevas da estagnação, em ideias obsoletas, em situações frustrantes ou dolorosas.
Logo no início da própria Bíblia encontramos este princípio. Em Gênesis 1:1–2, lê-se:
“No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.”
Primeiro, o caos. As trevas.
Mas então surge a palavra criadora. Em Gênesis 1:3:
“Disse Deus: Haja luz; e houve luz.”
Essa dinâmica não se restringe à tradição bíblica ou à celebração da Páscoa. Ela aparece repetidamente nas narrativas simbólicas de diversas culturas ao redor do mundo, como se a humanidade inteira tivesse percebido esse mesmo padrão fundamental da existência.
Na Mitologia Grega, o Khaos era entendido como o vazio primordial — uma massa disforme que antecedia a criação do Cosmos, a ordem. Assim, a desordem não era o fim, mas o útero da organização do mundo.
Na Mitologia Egípcia, acreditava-se que o universo surgiu a partir de Nu (ou Nun), um abismo de águas escuras e caóticas. Desse caos emergia a terra firme, instaurando a ordem e inaugurando um ciclo de renovação contínua.
Já na filosofia chinesa, esse mesmo movimento é expresso pelo princípio do Yin e Yang. O Yin, associado à recepção, à escuridão e ao potencial caótico; o Yang, ligado à ação, à luz e à ordem. Não são forças opostas que se anulam, mas forças que se complementam e se transformam mutuamente. No próprio Yin já habita o germe do Yang — o caos contém em si a semente da nova ordem.
A luz no fim do túnel, a transformação das trevas em luz não é apenas uma metáfora religiosa ou filosófica. Ela parece fazer parte da própria estrutura da existência.
Desde as narrativas da criação do universo, esse movimento se repete.
Ao ser humano cabe, então, algo essencial: a palavra e a ação. O impulso criador de direcionar seus esforços para que uma nova realidade possa surgir — um novo tempo, um novo ciclo, uma nova vida. Mas isso exige coragem. Pois atravessar o túnel implica caminhar pela escuridão.Caso contrário, ao recusar a travessia, o homem permanece nas trevas, deixando passar a raríssima oportunidade de testemunhar o surgimento da luz no horizonte da própria vida.
Fácil não é.
Não foi fácil ser traído, humilhado, crucificado e morto.
Não foi fácil estar encurralado entre um exército e o mar, sem qualquer saída aparente.
Mas é justamente nesses momentos que a graça divina se manifesta.
Ela se revela na vida daqueles que decidem, agem, enfrentam, caminham e aceitam a dinâmica profunda do universo.
Pois, no fim do túnel — sempre — existe luz.
Joyce de Cillo é mãe, advogada trabalhista e empresarial há 16 anos, empresária e integrante de instituições filantrópicas e conselhos.
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