A crise do pertencimento

O ser humano não adquiriu novas emoções ou sentimentos desde sua criação. Os nomes, esses sim, são trocados, modificados, modernizados; porém, o ser humano não teve a capacidade de criar emoções ou sentimentos diferentes desde a sua origem. Apenas conseguiu elevar ou denegrir ainda mais suas características humanas, sua consciência e seus valores.

A necessidade de pertencimento sempre existiu e ataca ferozmente os mais fracos, cujo ruído da multidão que acompanha os perversos se destaca nos noticiários.

Nas últimas semanas, presenciamos a comprovação pública de casos bastante didáticos: o do perverso Jeffrey Epstein e, no Brasil, o esquema de corrupção envolvendo Daniel Vorcaro. Duas pessoas cujo grupo que permeava suas ações os fortalecia e incentivava.

Afinal, além dos que participavam diretamente de ações tão deploráveis, há os que acompanhavam ambos para obter os benefícios e o glamour que envolviam os protagonistas. Só um detalhe indigesto: pessoas morreram, sofreram prejuízos e tiveram suas vidas destruídas.

Esses dois casos pontuais existem em cada esquina, guardadas as devidas proporções.

Não é necessário muito, no cotidiano, para identificar os “compráveis”, cuja fraqueza é notória. Afinal, o amigo corrupto convida para sua casa de praia; o colega violento com a família é divertidíssimo nos churrascos; o promíscuo que expõe inocentes nuas em grupos e participa de estupros virtuais trabalha ao meu lado e é muito educado; o dono da chácara de fim de semana que maltrata animais é tão generoso, entre tantos outros exemplos.

Os perversos sabem que, diante de covardes e fracos, a oferta é pequena para manter cativo o seu público. Não é necessário palácio, não é necessário banquete: basta alguma pequena vantagem ou, no pior dos casos, basta sugerir que é melhor manter o silêncio, afinal, se houver alguma mudança no grupo, na dinâmica social ou empresarial, a vantagem minúscula pode ser perdida.

Isso contribui, e muito, para que ações perversas e doentias, conhecidas por todos, se mantenham ativas. Não seja esse tipo de pessoa.

Afinal, como diz Caetano Veloso em Oração ao Tempo: “Tempo, tempo, tempo, tempo, és um dos deuses mais lindos” — e é implacável com os fracos e perversos.

Joyce de Cillo
é mãe, advogada trabalhista e empresarial há 16 anos, empresária e integrante de instituições filantrópicas e conselhos. @cilloadv