Christine Prisco Luiz e Sibele Stamato falam de uma arquitetura que preserva memórias, honra o
passado e reinventa o futuro
Há projetos que começam com um croqui. Outros, com uma fotografia antiga. Este nasceu de uma lembrança.
A antiga casa da família, palco de almoços de domingo, festas de aniversário, brincadeiras de infância e incontáveis encontros ao redor da mesa, carregava muito mais do que paredes e telhado. Guardava a essência de uma família inteira. Em vez de demolir para construir novamente, a decisão foi outra: preservar.
Mas, preservar não significa congelar o tempo. Significa compreender a história para permitir que ela continue sendo escrita. E foi exatamente esse o desafio da veterinária Christine Prisco Luiz, ao encarar esta reforma: manter viva a alma da casa da avó, enquanto ela renascia preparada para receber as próximas gerações. Uma reforma com cheiro de infância que resgata memórias, abraça a modernidade com sustentabilidade e transforma uma herança de família em um refúgio contemporâneo, onde arquitetura, afeto e natureza convivem em perfeita harmonia.
Na idealização da empreitada, carregada de sonhos e desafios, ela encontrou na arquiteta Sibele Stamato a parceira perfeita para realizá-los. E é Christine quem explica, aliás, com muita emoção:
“Cada parede escondia uma história. As antigas janelas, as madeiras maciças das vigas, os pisos de taquinho, as pedras, as paredes de tijolinhos e reboco arenoso e inúmeros outros detalhes construtivos revelavam uma época em que as casas eram feitas para durar e atravessar gerações.”
Assim, em vez de substituir indiscriminadamente, cada elemento passou por uma análise criteriosa. O que possuía valor histórico, estrutural e afetivo foi cuidadosamente restaurado. O que já havia cumprido seu ciclo foi renovado, utilizando materiais nobres e soluções contemporâneas e sustentáveis, respeitando a linguagem original da residência. “Uma reforma que preserva memórias, abraça a sustentabilidade e transforma uma herança de família em um refúgio contemporâneo, onde afeto e natureza convivem em perfeita harmonia, é o sonho realizado, pois o resultado é uma arquitetura que não esconde o tempo. Ela o celebra!”
Da Redação
Uma parceria criativa
Todo grande projeto nasce do encontro entre pessoas que compartilham um mesmo sonho. Neste caso, a sintonia entre uma arquiteta e uma veterinária foi determinante para o resultado. Com experiência em reformas residenciais construída ao longo de anos dedicados à criação de espaços que valorizam as pessoas e um olhar atento à preservação do patrimônio afetivo, Sibele conduziu cada etapa equilibrando técnica, sensibilidade e respeito pela história da construção.
Ao seu lado, a veterinária Christine trouxe uma contribuição singular. Acostumada a observar os ciclos da natureza, compreender o comportamento dos animais e valorizar o equilíbrio dos ecossistemas, ela participou ativamente do processo criativo. Seu olhar sensível inspirou escolhas que aproximam a casa do jardim, privilegiam materiais naturais e criam ambientes acolhedores, tanto para as pessoas quanto para os animais de estimação que fazem parte da família.
A identidade da Casa da Vó também nasceu do encontro entre dois universos criativos. De um lado, o estilo de vida de Christine, marcado pela essência boho, pelo espírito livre e por uma profunda conexão com a natureza. Do outro, a arquitetura autoral de Sibele, pautada pela sofisticação, pela elegância atemporal e pelo design de alto padrão. Longe de se oporem, essas linguagens se complementam e dão vida a uma atmosfera singular, onde o aconchego encontra o refinamento, e a autenticidade convive em perfeita harmonia com o luxo.
Essa troca de ideias deu origem a um projeto autoral, no qual experiência profissional e criatividade caminham lado a lado. Cada decisão foi resultado de diálogo, pesquisa, necessidades práticas transformadas em soluções elegantes e personalizadas e um desejo comum de transformar lembranças em espaços capazes de acolher novas gerações.
Design que respeita a história
Christine conta que o projeto partiu de um princípio simples: “O verdadeiro luxo está na autenticidade. Por exemplo: as madeiras restauradas convivem naturalmente com pedras naturais, metais sofisticados, iluminação cênica e mobiliário contemporâneo, cuidadosamente selecionado. As texturas aparecem em todos os ambientes. Tijolinhos de barro originais foram deixados à vista; na escada antiga, onde tantas conversas aconteceram, foi incorporado um gradil cuidadosamente desenhado. Veludo, fibras naturais, madeira envelhecida, pedra bruta e vitrais criam uma composição elegante, sensorial e acolhedora. As cores assumem um papel fundamental nessa transformação.”
Para completar, tons terrosos, verdes inspirados na vegetação brasileira, azuis profundos e nuances naturais revelam uma paleta elegante. “Assim, o resultado foi uma atmosfera sofisticada, calorosa e atemporal, onde cada material desperta sensações e reforça a identidade da casa. Todo material foi pensado para envelhecer com beleza e contar uma história, equilibrando passado e presente em perfeita harmonia. Porque uma casa de família continua sendo construída todos os dias”, ensina.
Luz, ventilação e natureza
De acordo com Sibele, a porta de entrada continuou a mesma, com o pequeno postigo antes usado pelos avós; já na cozinha, novas portas e janelas desenhadas e feitas com madeira de demolição permitem que a luz natural percorra todos os ambientes ao longo do dia. “A varanda ganhou protagonismo. Um espaço onde o café da manhã acontece ao som dos pássaros, onde as tardes se prolongam em boas conversas e onde o vento atravessa a casa naturalmente. A ventilação cruzada reduz a necessidade de climatização artificial e cria um conforto que nenhuma tecnologia consegue reproduzir”, detalha.
Graduada em Arquitetura, com MBA em Arquitetura de Luxo e aperfeiçoamento em Milão – um dos maiores polos mundiais do design -, Sibele construiu um repertório que une precisão técnica, sofisticação e sensibilidade artística.
“É a natureza participando da arquitetura”, ensina, frisando que mais do que preservar uma construção, este projeto traduz uma maneira consciente de habitar. “Neste projeto, sustentabilidade não aparece como um discurso. Ela faz parte da rotina. O sistema de captação e reúso de água abastece o pequeno jardim, áreas externas e serviços de apoio, reduzindo significativamente o consumo de água potável. No telhado, painéis solares captam a energia do sol e abastecem a residência com eficiência, diminuindo custos e impactos ambientais, tornando a casa eficiente, econômica e preparada para o futuro.
Restaurar, reaproveitar e conservar a maior parte da estrutura original também representa uma escolha ambiental inteligente. A construção mais sustentável é, muitas vezes, aquela que já existe. Ao preservar materiais, evita-se desperdício, reduz-se a geração de resíduos e prolonga-se a vida útil de recursos que atravessaram décadas. Cada decisão de projeto respeitou o meio ambiente”, explica Sibele.
O coração da casa
Toda casa possui um lugar onde as pessoas permanecem e, conforme Christine, nesta, esse lugar é a lareira. “Mais do que aquecer os dias frios, ela aquece as relações. Ao redor do fogo, o tempo desacelera. As conversas se tornam mais longas. Os vinhos são compartilhados. As crianças brincam próximas aos avós. Os amigos permanecem até mais tarde. A lareira transforma a sala em um verdadeiro ponto de encontro. Um novo elemento incorporado à casa, e é ali que novas memórias passam a fazer parte da história da família”.
Arquitetura para viver
Os ambientes foram completamente reorganizados para acompanhar a vida contemporânea. A integração entre cozinha, jantar e estar favorece a convivência. A marcenaria planejada organiza a rotina sem abrir mão da elegância. Cada armário possui uma função. Cada circulação foi cuidadosamente estudada. Cada espaço foi desenhado para simplificar o cotidiano. O luxo aparece justamente onde ele faz mais diferença: no conforto diário.
Muito além da reforma
O fato é que, ao entrar na casa pronta, percebe-se imediatamente que algo permaneceu intacto. Não é a madeira. Não são as paredes. Nem os móveis. É a sensação de pertencimento. Segundo Christine, a casa continua contando as mesmas histórias. Agora, porém, está preparada para receber muitas outras. Mais eficiente. Mais iluminada. Mais organizada. Mais sustentável. Mais confortável. Sem nunca deixar de ser a Casa da Vó. “Porque, algumas construções atravessam gerações. Afinal, a melhor arquitetura não substitui memórias. Ela as protege, as valoriza e cria o cenário para que novas histórias sejam vividas. Uma arquitetura que respeita suas raízes, abraça a inovação e prova que uma casa pode evoluir sem jamais perder sua alma.”
Ficha do Projeto
“Uma residência onde passado e futuro coexistem em perfeita harmonia, provando que o maior luxo é viver em um lugar que preserva sua história enquanto acolhe novas memórias.”
A frase é de Sibele, ensinando que a verdadeira arquitetura transcende a construção. Ela nasce da sensibilidade, da cultura e da capacidade de transformar espaços em experiências memoráveis. “É nessa essência que se fundamenta o meu trabalho enquanto arquiteta”, diz ela, que tem uma trajetória marcada pela busca incansável por excelência e uma visão profundamente autoral.
Aliás, sua formação artística começou muito antes da universidade. Desde a infância, a dança clássica e o flamenco ensinaram-lhe disciplina, equilíbrio e a beleza dos movimentos. O convívio com uma família apaixonada por arte, música e pintura despertou uma percepção aguçada da estética e da emoção, elementos que hoje definem a essência de sua arquitetura.
Assim, segundo ela, cada projeto é concebido como uma obra singular, onde luz, matéria, proporção e natureza dialogam com absoluta harmonia. O luxo é tratado como expressão de autenticidade, jamais de excessos; a contemporaneidade surge com elegância atemporal, privilegiando materiais nobres, detalhes cuidadosamente desenhados e ambientes que refletem a personalidade de seus moradores. “E foi isso que senti quando conheci a Casa da Vó. Pensamentos e ideias voaram. Já imaginava a história que a parede descascada teria para contar, ou aquele cantinho de jardim, com tantas possibilidades que se tornaram reais. Meu sentimento de parceria com Christine foi instantâneo”.
Construída no início dos anos 1960, numa época em que a cidade já passava por grande transformação em seu perfil, essencialmente fabril, a Casa da Vó, um sobrado com aproximadamente 140 m², fica na Rua Galeão Carvalhal, no bairro Jardim Bela Vista.
Enfim, mais do que criar residências de alto padrão, Sibele consegue traduzir histórias, desejos e memórias em arquitetura. Seus projetos revelam uma assinatura discreta e inconfundível, onde cada espaço acolhe, emociona e permanece vivo ao longo do tempo — uma arquitetura que não apenas encanta pelo que se vê, mas principalmente pelo que se sente.







